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Comportamento

Even the Good Girls Will Cry — Melissa Auf der Maur

Ela não era o caos. Era quem olhava direto para ele — e essa é a coisa mais ameaçadora que uma mulher pode fazer numa cena dominada por homens.

Por Thiago Freitas · 24 de abril de 2026

Even the Good Girls Will Cry — Melissa Auf der Maur
Foto: George Holz

Nota: 9/10

Confesso que demorei para entender o que Melissa Auf der Maur representava. Sou fã dos Pumpkins (tenho inclusive uma banda cover deles) desde que ouvi Soma no volume máximo num quarto escuro, e quando ela entrou na turnê em 2000 substituindo D'arcy Wretzky, fui um daqueles que ficou quieto e esperou. Não sabia ainda que o silêncio dela era mais poderoso do que qualquer ruído ao redor.

Even the Good Girls Will Cry chegou em março deste ano pela Da Capo / Grand Central Publishing. São 432 páginas que a própria Melissa descreve como "parte memória de rock, parte diário de viagem, parte scrapbook psicodélico." Mas esse subtítulo não dá conta do que o livro realmente é. O que Auf der Maur escreveu é um documento da última década analógica — de 1991 a 2001 — pela perspectiva de uma mulher forte e que esteve no centro de um furacão e preferiu fotografar a gritar com ele.

Deixa eu falar dos anos 90 por um segundo, porque isso é pessoal demais para eu fingir distância crítica. Minha adolescência foi inteiramente moldada por aquela época. Era o tempo em que você descobria uma banda por uma fita cassete emprestada de alguém que mal conhecia. Em que comprar um disco era um ato de fé, e a capa funcionava como mapa do mundo interior de outra pessoa. Havia uma densidade emocional na cultura daquele tempo que hoje custa a encontrar. As coisas doíam de jeito diferente. E as bandas — o Nirvana, os Pumpkins, o Hole — não faziam música apesar da dor. Faziam com ela, dentro dela, às vezes contra ela. Era impossível não ser formado por isso.

A história de Melissa começa de um jeito que parece inventado demais para ser real. Ela era uma estudante de fotografia em Montreal que trabalhava como DJ de fita cassete num clube. Os Smashing Pumpkins tocaram lá em 1991. Uma garrafa de cerveja foi jogada no palco — não por ela, mas por um amigo — e isso abriu a primeira conversa com Billy Corgan. Uma carta enviada para uma caixa postal abriu a segunda. E foi o instinto de Corgan, reconhecendo algo nela que ela mesma talvez ainda não tivesse nomeado, que levou ao convite de Courtney Love para entrar no Hole em 1994 — quando Kurt Cobain tinha acabado de morrer e a baixista anterior, Kristen Pfaff, tinha morrido de overdose seis semanas depois. O livro traz revelações inéditas também sobre a relação Auf der Maur x Corgan!

O primeiro show de Melissa com o Hole foi o Reading Festival de 1994. Sétimo show da sua vida, na frente de 65 mil pessoas. Ela mesma chama isso de ser uma "absurda Cinderela grunge com acesso VIP ao baile." Mas o que o livro revela, lenta e honestamente, é que essa Cinderela nunca perdeu o senso crítico. Ela enxergava. Ela documentava. Ela fotografava enquanto o resto do mundo tentava não se afogar.

Muito se falou do caos do Hole, da força de Courtney, da nostalgia do grunge. Mas quase ninguém disse o seguinte: a posição de Melissa Auf der Maur naquele ambiente de rock dominado por homens, onde o colapso era visto como prova de autenticidade, era fundamentalmente subversiva não por ser escandalosa, mas por ser o oposto. Ela era sóbria. Ela era presente. Era uma mulher que preferia observar com a câmera a ser consumida pela narrativa. Numa cena em que a autodestruição era capital simbólico, isso era uma ameaça silenciosa ao ego masculino que definia as regras.

Pense no contexto: Billy Corgan definia os termos do que era "genial." Kurt Cobain definia os do que era "autêntico." Dave Grohl definia os do que era "o cara legal." E as mulheres tinham basicamente dois caminhos permitidos: ser Courtney Love — escandalosa e crucificada — ou ser D'arcy Wretzky — silenciada e eventualmente apagada. Melissa inventou um terceiro caminho que não tinha nome ainda. Ela ficou. Ela viu. Ela sobreviveu com o ego intacto. E trinta anos depois escreveu sobre isso com a precisão de quem nunca deixou de observar.

Como fã dos Pumpkins, sempre me encantei com a estética de Melissa — aquela postura de quem carrega algo valioso e prefere não exibir. Era visível nos shows, nas fotos, na forma como ela se movia no palco: discreta, precisa, séria, forte. Agora entendo de onde vinha. Vinha de uma mulher que sabia a diferença entre presença e performance. O livro confirma o que a imagem sugeria: ela não estava ali para impressionar.

O livro começa com um poema de cinquenta páginas durante a pandemia, quando Melissa se isolou no Canadá e ouviu, segundo ela, "o farfalhar da mulher dos anos 90 dentro de mim." O resultado é uma prosa que alterna entre a precisão da jornalista — filha de dois jornalistas — e a sensibilidade da fotógrafa. Há passagens sobre a morte do pai, sobre o namoro com Dave Grohl, sobre a saída do Hole, que têm uma honestidade quase física. Você sente o peso das coisas enquanto lê. E o retrato que ela faz de Courtney Love — não como espetáculo ou problema, mas como artista brilhante e incompreendida, alguém uivando contra a escuridão como se quisesse afastar o luto — é um dos atos de generosidade mais bonitos que já vi numa memória de rock.

Tenho consciência de que há uma tensão estranha em ser fã de Pumpkins e escrever com tanto entusiasmo sobre uma mulher que esteve lá, mas que nunca ocupou o centro da minha narrativa adolescente. E participou muito pouco da vida da minha banda favorita. Mas esse é exatamente o ponto. Os anos 90 me formaram — e formaram com pontos cegos que só o tempo revela. Even the Good Girls Will Cry é, entre outras coisas, o livro que ilumina esses pontos cegos com a luz certa: não a do holofote, mas a da câmera analógica, que capta o que estava lá o tempo todo, esperando ser visto.


Veredicto: Um dos melhores livros já escritos sobre os anos 90 — não porque tenha os bastidores mais explosivos (embora tenha), mas porque é narrado por uma mulher que esteve lá com os olhos abertos quando todo mundo preferia fechá-los. Melissa Auf der Maur sempre foi mais do que a cena permitia que ela fosse. Agora ela prova isso por escrito.

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