Por que quem pensa diferente passou a ser visto como inimigo?
Da Copa do Mundo às eleições, a psicanálise ajuda a explicar por que transformamos adversários em inimigos e o que esse comportamento revela sobre nós mesmos
Por Redação · 06 de agosto de 2026

Durante algumas semanas, milhões de brasileiros acompanharam a Copa do Mundo, vibraram com vitórias, lamentaram derrotas e viveram intensamente uma rivalidade que faz parte da essência do esporte. Passado o campeonato, o clima de competição começa a dar lugar a outro tipo de disputa. Com a aproximação do período eleitoral, o debate político ganha força, as redes sociais voltam a se acirrar e conversas entre amigos e familiares tornam-se, muitas vezes, terreno para conflitos.
Embora pareçam cenários completamente diferentes, futebol e política compartilham um mecanismo comum: ambos tornam visível uma tendência humana muito mais antiga do que as redes sociais ou as campanhas eleitorais. A de transformar quem está do outro lado em alguém que deixa de ser apenas um adversário para ocupar o lugar de inimigo.
O contexto ajuda a explicar por que esse comportamento desperta tanta atenção. Segundo o Digital News Report 2025, do Reuters Institute, cresce em diversos países a preocupação com a polarização do debate público impulsionada pelas redes sociais e pelo consumo de conteúdo mediado por algoritmos. O levantamento aponta que 58% dos entrevistados demonstram preocupação com a dificuldade de distinguir informações verdadeiras de falsas no ambiente digital, enquanto as plataformas assumem papel cada vez mais central na formação da opinião pública.
No Brasil, o cenário ganha ainda mais relevância. O relatório Digital 2025, da DataReportal, mostra que os brasileiros permanecem entre os povos que mais utilizam internet no mundo, com média superior a nove horas de conexão por dia. As redes sociais ocupam parte significativa desse tempo, tornando-se um dos principais espaços de informação, debate e mobilização.
Mas, para a psicanalista e psicóloga Camila Camaratta, seria um equívoco atribuir esse comportamento apenas às plataformas digitais.
"Durante algumas semanas, assistimos a um espetáculo curioso. Pessoas vibram, sofrem, comemoram e, não raro, fazem do adversário alguém tão importante quanto aquele por quem torcem. O futebol apenas torna visível um mecanismo que atravessa toda a vida social."
Segundo a psicanalista, terminado o campeonato, a dinâmica permanece. Apenas muda o cenário em que ela acontece.
"As rivalidades sobrevivem ao apito final porque cumprem uma função muito maior do que imaginamos."
Na avaliação de Camaratta, rivalizamos menos por causa das diferenças e mais pela necessidade de construir nossa própria identidade.
"Talvez não rivalizemos porque somos diferentes. Talvez precisemos das diferenças para sustentar quem acreditamos ser."
Essa ideia dialoga diretamente com um dos conceitos mais conhecidos de Sigmund Freud. Ao desenvolver a teoria do narcisismo das pequenas diferenças, o fundador da psicanálise observou que grupos extremamente semelhantes costumam ampliar pequenas distinções justamente para preservar sua identidade. Paradoxalmente, os conflitos mais intensos nem sempre surgem entre pessoas completamente diferentes, mas entre aquelas que compartilham muito mais semelhanças do que imaginam.
"Nem sempre são os muito diferentes que despertam nossas maiores hostilidades. Muitas vezes, os conflitos mais intensos surgem justamente entre aqueles que mais se parecem."
Outro mecanismo descrito pela psicanálise ajuda a compreender por que determinados debates rapidamente deixam de girar em torno de ideias para atingir as pessoas: a projeção.
Nesse processo, sentimentos, desejos ou características difíceis de reconhecer em si mesmo acabam sendo deslocados para o outro, que passa a representar tudo aquilo que se deseja combater.
"Também é mais fácil localizar o mal fora de nós do que reconhecê-lo em nós. A agressividade, a ambição, a fragilidade, a insegurança ou o desejo de reconhecimento encontram um endereço conveniente: o outro."
Segundo Camaratta, esse movimento simplifica uma realidade que é, por natureza, complexa. Em vez de lidar com ambiguidades, passamos a dividir o mundo entre quem está do lado certo e quem representa tudo aquilo que precisa ser rejeitado.
Essa leitura também encontra respaldo na teoria da psicanalista Melanie Klein. "O difícil é suportar a ambivalência: reconhecer que uma mesma pessoa reúne luz e sombra, qualidades e defeitos, generosidade e egoísmo, acertos e equívocos. A esse movimento chamamos de integração", aponta Camila.
Para a psicanalista, é exatamente quando essa integração falha que o adversário deixa de ocupar seu lugar legítimo nas relações sociais.
"O problema começa quando o outro deixa de ser adversário para tornar-se inimigo; quando já não suportamos reconhecer nele qualquer traço de humanidade ou qualquer semelhança conosco."
Embora o período eleitoral torne esse comportamento mais evidente, Camaratta ressalta que ele se manifesta diariamente nas relações familiares, nas empresas, nos condomínios, nas torcidas esportivas e nas redes sociais. A diferença é que, no ambiente digital, os conflitos encontram velocidade, alcance e visibilidade inéditos.
Futebol, política ou qualquer outro espaço de disputa apenas oferecem novos cenários para mecanismos psíquicos que acompanham a humanidade há séculos. As rivalidades mudam de palco, mas continuam cumprindo a mesma função: organizar pertencimentos, reforçar identidades e, muitas vezes, simplificar uma realidade que é muito mais complexa.
Para Camaratta, o desafio não está em eliminar as diferenças, mas em impedir que elas destruam a capacidade de convivência.
"Talvez o maior desafio de uma democracia não seja eliminar as rivalidades, mas cultivar a capacidade de integrar em vez de cindir. Afinal, o adversário é alguém com quem disputamos ideias; o inimigo é alguém cuja existência deixamos de tolerar."
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