Mês da Herança Hispânica e Latino-Americana: Bad Bunny e a força da cultura na construção do pertencimento
Por Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Latam
Por Redação · 15 de outubro de 2026

Ao levar o espanhol e referências da cultura porto-riquenha para o palco do intervalo do Super Bowl, em fevereiro de 2026, Bad Bunny colocou em evidência uma discussão que ultrapassa a música. Em um espaço de enorme exposição internacional, a língua, os costumes e as experiências de seu lugar de origem ocuparam o centro da apresentação. Para parte do público que acompanhou o show, aquele também foi um momento de reconhecimento e orgulho.
Esse reconhecimento oferece um ponto de partida para refletir sobre o Mês da Herança Hispânica e Latino-Americana. A trajetória do artista nos convida a observar como a cultura pode aproximar pessoas de diferentes países e tornar mais presente uma identidade que, embora compartilhada, nem sempre faz parte da maneira como nos enxergamos no cotidiano.
Bad Bunny não criou esse pertencimento. A música, a literatura e o cinema já aproximavam a América Latina muito antes de sua chegada. Sua contribuição está em dar uma nova visibilidade a esse vínculo, em um ambiente no qual as referências circulam rapidamente entre países e gerações.
Uma das escolhas mais interessantes de sua trajetória é justamente a valorização do que existe de particular em sua origem. No álbum “Debí Tirar Más Fotos”, o artista reúne sonoridades como salsa e plena a elementos da música urbana e aborda vínculos com Porto Rico, memória e pertencimento. Em entrevista à TIME, ele relacionou o projeto à redescoberta de suas raízes e ao encontro com um som que o representa.
Vejo nessa escolha uma chave para compreender a identificação que sua obra desperta além da ilha. A saudade de casa, a relação com a família e o desejo de preservar referências culturais assumem formas diferentes em cada país, mas permitem que outras pessoas reconheçam as próprias experiências.
Um ouvinte brasileiro pode desconhecer parte das referências porto-riquenhas e, ainda assim, compreender o valor de uma celebração ou de uma memória familiar. A conexão nasce desse encontro entre experiências distintas, que não precisam ser idênticas para despertar reconhecimento.
É importante preservar essas diferenças. A América Latina reúne países, línguas e realidades que não cabem em uma única representação. Nenhum artista representa integralmente essa pluralidade. Ao afirmar de onde vem, Bad Bunny abre espaço para uma conversa sobre o valor das nossas próprias referências.
Sua trajetória pode ser entendida como um convite a esse reconhecimento. Ao afirmar de onde vem, ele abre espaço para uma conversa mais ampla sobre o valor das nossas próprias referências. O pertencimento latino-americano ganha força quando permite que diferentes experiências convivam, sem exigir que elas se tornem iguais.
Para o público brasileiro, essa conversa tem uma dimensão particular. Fazer parte da América Latina geograficamente não significa que essa identidade esteja sempre presente no modo como cada pessoa se apresenta. Conhecer artistas e produções dos países vizinhos pode despertar curiosidade e ampliar nossa compreensão da região.
Sob a perspectiva do comportamento, esse movimento ajuda a pensar no que buscamos quando consumimos cultura. Uma música pode marcar uma lembrança ou oferecer palavras para um sentimento. Ao perceber que uma experiência pessoal encontra eco em outras pessoas, também construímos vínculos de pertencimento.
Para as marcas, existe um aprendizado nessa relação. Falar com consumidores latino-americanos exige conhecer seus contextos e os significados que atribuem às suas escolhas. Uma campanha regional pode ter uma ideia comum, mas precisa considerar como será compreendida em cada lugar. Traduzir uma mensagem é apenas parte desse trabalho.
No Mês da Herança Hispânica e Latino-Americana, a trajetória de Bad Bunny nos convida a olhar para nossas origens com mais interesse e orgulho. O reconhecimento internacional amplia sua visibilidade, mas o valor dessas referências já existia nas comunidades. Vê-las ocupar grandes palcos pode nos incentivar a reconhecer aquilo que sempre fez parte de nós.
Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Latam, analisa como Bad Bunny contribui para fortalecer o orgulho e o sentimento de pertencimento latino-americano
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