A melhor ferramenta de IA pode resolver o problema errado
*Por Priscila Spadinger
Por Redação · 04 de setembro de 2026

Recentemente, um advogado gestor de um grande departamento jurídico me ligou animado porque tinha acabado de fechar contrato com a “melhor ferramenta de IA do mercado” para o setor. Investimento de seis dígitos, aprovação do comitê, treinamento da equipe agendado.
Três meses depois, ele me ligou de novo e, dessa vez, não estava animado. A ferramenta funcionava, a equipe usava corretamente, mas nada, absolutamente nada, tinha mudado na rotina da área dele. E isso não é um caso isolado, mas o retrato mais comum do mercado jurídico brasileiro hoje.
Sua tecnologia está transformando o que realmente importa? Essa pergunta parece óbvia, mas quase ninguém faz antes de assinar o contrato. E é perfeitamente possível automatizar uma tarefa que nem deveria existir ou contratar uma excelente solução para o problema errado. Também é possível ganhar velocidade sem liberar uma hora sequer de capacidade para o que é estratégico.
Ter tecnologia não é sinônimo de inovar. Essa confusão é o erro mais caro que vejo repetidamente em escritórios e departamentos jurídicos, e ele não tem relação com o tamanho do orçamento nem com a qualidade da ferramenta escolhida.
A verdade é que a solução não deveria definir o problema, mas o mercado inverteu a ordem certa das perguntas. A primeira pergunta que a liderança jurídica costuma fazer hoje é: “qual ferramenta de IA devo comprar?”. Mas, deveria ser outra: “o que, na minha operação, precisa ser transformado?”. A primeira pergunta parte da oferta. A segunda parte do diagnóstico e só essa última gera resultado.
Inovar exige método para decidir o que realmente deve ser transformado. E método, aqui, significa ter critério para saber quando a resposta é comprar uma solução pronta, quando é adaptar algo que já existe, quando é desenvolver do zero, e quando o problema não é de tecnologia nenhuma, mas de processo.
E isso importa além do departamento jurídico. Quando uma liderança confunde aquisição de tecnologia com inovação, ela não está apenas desperdiçando orçamento de TI, mas deixando de liberar a capacidade que deveria estar em decisão estratégica, em geração de valor, em ampliar a atuação do negócio.
Da próxima vez que alguém te oferecer a melhor ferramenta do mercado, faça a pergunta antes de assinar. Não “o que essa ferramenta faz?”. Pergunte “o que eu preciso transformar?”. Se você não souber responder, nenhuma tecnologia vai responder por você.
*Priscila de Oliveira Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A. Lidera iniciativas de inovação jurídica e acompanha de perto a jornada de dezenas de LegalTechs brasileiras.
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