Mãe ou profissional? Psicóloga explica por que essa pergunta está adoecendo mulheres
A falsa necessidade de escolher entre a maternidade e a vida profissional alimenta culpa, sobrecarga e perda da identidade feminina
Por Redação · 03 de agosto de 2026

"Mãe ou profissional?"
Embora pareça uma pergunta comum, ela carrega uma armadilha que tem adoecido milhares de mulheres. Para a psicóloga e neuropsicóloga Tattiana ASerra, o problema não está na maternidade nem no trabalho, mas na crença de que uma mulher precisa abrir mão de quem é para exercer um dos dois papéis.
"Quando perguntamos a uma mulher se ela prefere ser mãe ou profissional, estamos partindo da ideia de que essas identidades competem entre si. Na prática, essa lógica gera culpa permanente, sensação de insuficiência e faz com que muitas mulheres sintam que estão fracassando, independentemente da escolha que façam", explica a especialista.
Segundo Tattiana, a maternidade contemporânea vem sendo marcada por uma cobrança constante para que a mulher seja uma mãe presente, uma profissional produtiva, uma companheira disponível e ainda cuide da própria saúde física e mental. O resultado é uma sobrecarga que vai muito além do cansaço físico.
"Existe uma expectativa social de desempenho perfeito em todas as áreas da vida. É impossível atender a todas essas demandas ao mesmo tempo sem pagar um preço emocional."
Quando sobra apenas a mãe
Para a psicóloga, um dos efeitos mais silenciosos da maternidade é o desaparecimento gradual da identidade feminina.
"Em muitos casos, a mulher passa a ser reconhecida apenas como mãe. Seus interesses, sonhos, amizades, hobbies e até sua carreira ficam em segundo plano. Aos poucos, ela deixa de responder à pergunta 'Quem sou eu?' e passa a existir apenas em função das necessidades dos filhos."
Esse processo pode acontecer de forma quase imperceptível e contribuir para sintomas como ansiedade, esgotamento emocional, baixa autoestima e dificuldade de reconhecer os próprios desejos.
"Não é raro ouvir mulheres dizendo que não sabem mais do que gostam, do que sentem prazer ou do que fariam se tivessem algumas horas livres. Isso mostra o quanto a identidade pode ficar restrita ao papel materno."
A culpa que nunca termina
Outro fator que alimenta esse sofrimento é a culpa materna.
Segundo Tattiana, independentemente da decisão tomada, muitas mulheres sentem que estão errando. Se permanecem mais tempo no trabalho, acreditam que estão negligenciando os filhos. Se priorizam a família, sentem culpa pela carreira interrompida ou pelos projetos pessoais adiados.
"Essa culpa não nasce da maternidade. Ela nasce das expectativas irreais que a sociedade construiu sobre o que significa ser uma 'boa mãe'."
A especialista ressalta que esse ciclo costuma ser reforçado pelas redes sociais, onde predominam imagens idealizadas de famílias, carreiras e rotinas aparentemente perfeitas.
O caminho não é escolher, mas integrar
Na avaliação da psicóloga, a solução não está em abandonar um papel para viver o outro, mas em integrar todas as identidades que fazem parte da vida de uma mulher.
"Ser mãe não precisa apagar a profissional, assim como a profissional não diminui a mãe. Uma identidade fortalece a outra. Quando a mulher preserva espaços para cuidar de si, manter vínculos, desenvolver sua carreira e cultivar seus interesses, ela também oferece aos filhos um exemplo mais saudável de equilíbrio e autonomia."
Para Tattiana ASerra, é preciso substituir a lógica da escolha pela da integração.
A pergunta não deveria ser 'mãe ou profissional?'. A pergunta correta é: como podemos promover uma cultura de liberdade e aceitação de que às mulheres não nasceram para ser desenhadas, mas sim para desenhar sua própria identidade, sendo elas mães ou não.
Em um momento em que a ascensão feminina ocupa cada vez mais espaço no debate público, compreender essa fragmentação da identidade é um passo importante para promover a integração feminina, sem que tenha que existir essa discussão.
Sobre Tattiana ASerra, neuropsicóloga, autora e comunicadora
Neuropsicóloga pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), graduada em Psicologia pela Universidade Paulista (2014), analista do Comportamento pela Universidade de São Paulo (USP).
Com mais de uma década de experiência promovendo indivíduos e famílias, é também autora de dois livros, um dos quais é um best-seller.
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